Existe algum sentido
que justifique a busca de diálogo, intercâmbio e aproximação
entre a atual missão dos Oblatos de Maria Imaculada e a articulação
dos movimentos sociais, partidos políticos e entidades não governamentais
responsáveis pela elaboração do Fórum Social Mundial
como plataforma capaz de consolidar Outro Mundo Possível?
Com a celebração de 183 anos de sua existência (17/02/2009)
a Congregação dos Oblatos de Maria Imaculada oferece à
igreja e ao mundo o testemunho da força criadora do Evangelho de Jesus
que, uma vez fecundado no tempo e história de Santo Eugênio De
Mazenod e seus irmãos missionários, chega aos dias de hoje com
vigor inconfundível, desafiando-nos a encarar as crises e oportunidades
do tempo presente com a mesma fé e compromisso apostólico vivenciados
na experiência fundante de Aix-en-Provence.
Assim, como congregação religiosa em comunhão com a Igreja
de Jesus e atenta aos apelos de Deus na história dos seres humanos, os
Oblatos têm procurado colaborar na formação dos sujeitos
do Reino de Deus, ou seja, indivíduos empenhados na construção
de outro mundo através de inúmeros serviços missionários
oferecidos à igreja e à sociedade como respostas às necessidades
da realidade sócio-cultural em que se inserem as populações
a quem servimos e as comunidades em que vivemos.
Mas como sabemos ser enorme o desafio de edificar e dar sustentação
a outro mundo, à semelhança daquele que fora sonhado, anunciado
e inaugurado por Jesus de Nazaré, como Reino de Deus em que eram outros
os valores, as relações interpessoais e as práticas sócio-políticas
encarregadas de orientar a vida em sociedade, logo nos damos conta de que devemos
nos educar para acolher e respeitar o diferente, buscando para além de
nós mesmos as inúmeras outras perspectivas, experiências
e vivências capazes de realizar a ‘missão’ de restaurar
e tornar íntegra a condição humana e a natureza.
Neste particular, damos conta de que embora caracterizada com terminologia religiosa,
a tarefa referida diz respeito à grande responsabilidade que têm
os seres humanos frente aos males que ameaçam os destinos da Humanidade
e da Natureza.
Sendo ampla a problemática que nos desafia, imprescindíveis são
os valores do diálogo, abertura e entendimento para que, numa sadia interlocução
entre as perspectivas da vida religiosa, militância política ou
científica, por exemplo, possamos definir meios eficazes e estratégias
capazes de solucionar e/ou amenizar os principais problemas que afligem a Humanidade,
desvelando os caminhos desse Outro Mundo Possível, como anuncia, debate
e parece desejar consolidar os (as) militantes do Fórum Social Mundial.
Pela reflexão que desenvolvemos pode-se arriscar concluir que existem
vários sentidos justificadores da importância do intercâmbio
que os Oblatos buscam incrementar nos espaços internacionais do Fórum
Social Mundial. Vejamos alguns:
a) Ressalvadas as peculiaridades axiológicas e contornos ideológicos
de cada concepção, um paralelo entre o ideal do Reino de Deus
e a proposta de Outro Mundo Possível nos permite manter a utopia de uma
realidade nova e novos valores, sustentando a crítica contundente ao
modelo atual de desenvolvimento e produção que destrói
a natureza e gera multidões de excluídos numa organização
sócio-política desigual e injusta na distribuição
de poderes, bens e serviços;
b) Os fóruns são plataformas de construção coletiva
que permitem a convivência harmoniosa de valores, ideologias e perspectivas
diferentes, oferecendo-se como espaço propício para o debate de
temas relevantes para a humanidade, capaz de favorecer a educação
para a tolerância e respeito à diversidade social, religiosa, étnica
e sexual de quem o dinamiza.
c) Com a internacionalidade dos fóruns descobrimos novas e outras culturas;
são potencializadas as lutas das minorias étnicas e raciais; são
favorecidos laços de solidariedade; são instigadas as denuncias
de destruição do meio ambiente e de violação dos
direitos humanos a entidades internacionalmente influentes, etc.
d) Mesmo com algumas dificuldades organizacionais, encontramos nos fóruns
espaços importantes para seminários, debates, reflexões,
exibição de vídeos e manifestações de rua
que servem para nos enriquecer o intelecto e a capacidade humana de sonhar com
aquilo que ainda não existe mas que pode ser feito. São inúmeras
vozes que nos falam: especialistas, mulheres, índios, jovens, etc.
São tantos os motivos (inclusive aqueles que não se pode exprimir
em texto) que, por si só, o simples fato de participar de um Fórum
Social Mundial já é suficiente para nos enriquecer de lembranças,
experiências e sentimentos que nos chama a atenção para
a necessidade de ‘fazer algo’ para que aconteça esse Outro
Mundo Possível. Aprendemos que não é aceitável a
trivialidade com que se convencionou contemplar os absurdos da exclusão
social, fome, pobreza, miséria, guerra e destruição do
meio ambiente.
E viver a experiência do FSM como um entre trinta outros Oblatos em Belém
do Pará, aprendendo com o testemunho de fraternidade e solidariedade
de missionários do meu país, Congo, Zâmbia, República
Tcheca, Haiti, Sri Lanka, EUA, Bolívia, Peru e Paraguai, sob a inspiração
do Serviço Oblato pela Justiça, Paz e Integridade da Criação
(SG-JPIC), foi marcante porque nos permitiu vivenciar a internacionalidade missionária
num contexto em que nos sentíamos cidadãos do mundo, co-responsáveis
pelos destinos da Humanidade, partilhando sonhos e esperanças numa enorme
ágora multi-étnica que nos permitiu vislumbrar, ao menos por alguns
dias, os signos de Outro Mundo Possível.
Lindomar de Abreu
Dantas
03 de março de 2009.